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DOIS ANOS APÓS ESCÂNDALO DAS CRIPTOMOEDAS, NÃO HÁ PREVISÃO DE PAGAMENTO DE CLIENTES


Na primeira parte da discussão, o Verdades com a Ana ouviu advogados ligados ao caso G.A.S. Eles dizem que empresa não paga porque não quer e que o ressarcimento dos clientes não tem nada a ver com a prisão de Glaidson Acácio, o Faraó dos Bitcoins


Quando o podcast Verdades com a Ana, ancorado pela jornalista Ana Paula Mendes, decidiu discutir os dois anos do escândalo envolvendo o uso de criptomoedas no Brasil, não imaginava a repercussão. Na primeira chamada, centenas de comentários. Alguns parabenizando a equipe pelo tema. Outros, criticando a escolha dos entrevistados. O episódio desta semana convidou os advogados Jeferson Brandão e Luciano Regis, que trabalham no caso. Jeferson Brandão não defende investidores da G.A.S., mas como cliente, ajudou a encabeçar o movimento para agilizar a devolução do dinheiro a quem investiu na empresa. E mais que isso, acabou participando até das discussões sobre o novo marco legal das criptomoedas que entrou em vigor neste ano e está em fase de regulamentação. Já Luciano Regis, além de trabalhar na defesa de clientes, também representa a família de Wesley Pessano, o trader assassinado em 2021. Segundo as investigações da polícia civil, Glaidson Acácio dos Santos foi o mandante do crime, para evitar a concorrência.


No próximo mês, o programa vai levar ao ar a entrevista com a advogada de defesa de Glaidson, Flávia Froes, do Rio de Janeiro. Ela já confirmou a gravação do episódio no próximo dia 28. Flávia é uma figura controversa no meio jurídico, porque já defendeu líderes das maiores quadrilhas de tráfico de drogas do Brasil. Na lista de clientes, traficantes como Fernandinho Beiramar e Marcinho VP. Flávia Froes também defendeu o dr. Jairinho, ex-médico e ex-vereador do Rio, preso por torturar e matar o enteado Henry Borel, de 4 anos.


Independentemete de que lado o cliente da G.A.S esteja é preciso prestar atenção no que dizem os advogados ouvidos pelo Verdades com a Ana. A começar pela resposta deles para a pergunta que todos se fazem há mais de dois anos: os clientes vão conseguir reaver o dinheiro aplicado? A resposta dos dois advogados foi unânime: o caso é muito complexo e até que o pagamento seja feito ainda há um longo caminho a ser percorrido. Ou seja, para eles, nada de ressarcimento à vista.


O Verdades com a Ana também questionou os advogados sobre a tese da defesa de Glaidson de que os pagamentos só não foram feitos ainda porque Glaidson está preso e a empresa está com recursos bloqueados. "Essa é a narrativa da G.A.S. Eles tentam falar. Glaidson precisa ser solto pra pagar. Mas eu tenho uma péssima notícia. A tendência, considerando todos os processos do Glaidson, é que ele fique, hoje a legislação permite até 40 anos de prisão, então prepare 40 anos pra esperar", disse Luciano Regis. Além de responder por crimes financeiros, como o uso ilegal do esquema de pirâmides, Glaidson também é acusado de matar Wesley Pessano e tentar matar Nilson Alves da Silva, o Nilsinho. "Por que que o Glaidson não paga? Não é porque tá preso, não é porque tem bloqueio judicial. Não é por causa disso. Não paga porque não quer", concluiu.


Jeferson Brandão, que já fez 5 visitas a Glaidson na prisão para conversar sobre o ressarcimento, é enfático ao dizer que se Glaidson fizesse um documento e apresentasse a justiça, dizendo que quer pagar os clientes e apontando onde estão os recursos, isso já teria sido feito. "Ele diz isso, mas, na prática, não há nenhum pedido oficial dele dizendo que quer devolver o dinheiro", concluiu Brandão.


Além disso, há outros vários os fatores, segundo os advogados, que podem atrasar a devolução do dinheiro. A começar pelo número de clientes da G.A.S Consultoria. A Polícia Federal chegou a dizer que eram 300 mil clientes, quantidade que era divulgada pela própria empresa. Só que não foram apresentados documentos que comprovassem esses números. Oficialmente, 89.472 pessoas se cadastraram no escritório do administrador judicial da G.A.S. para receber o dinheiro. "Houve campanha forte de setores mais radicais para que as pessoas não se inscrevessem, sendo que isso não traz nenhum prejuízo", disse Jeferson Brandão. "Por lei, a G.A.S. deveria ter entregue essa lista de credores, o Glaidson foi intimado em Catanduvas para ele colocar a lista, não colocaram. Tá uma confusão esse negócio de lista, por que? Porque se a G.A.S entregasse já teria passado dessa fase", concluiu. Luciano Regis complementou: "Glaidson foi preso no dia 25 de agosto de 2021, até o dia 15, 16 os pagamentos continuaram. Então eles tem esse controle de lista. Não é apresentado, porque a G.A.S nunca foi transparente. Ninguém sabe quem são os trades da G.A.S, ninguém sabe quem são os clientes", disse.


Para quem não se inscreveu ainda para receber o dinherio com o administrador judicial, a dica é aguardar. Um novo prazo de inscrição deve ser reaberto em breve.


Os valores que a empresa teve ou tem em mãos também é um mistério. Até agora, a Policia Federal conseguiu bloquear R$ 1 bilhão, segundo Luciano Régis. Mas, na época, a própria G.A.S. declarava que tinha R$ 38 bilhões. "Os números são todos megalomaníacos assim. Todo mundo fala R$ 38 bilhões em movimentação. Na verdade, nunca exitiram R$ 38 bilhões. Se você movimenta R$ 1 dez vezes, você vai falar que movimentou R$ 10. O jornalista Arnaldo Neto, que também participa do Verdades com a Ana, perguntou se há como rastrear esse dinheiro. Jeferson Brandão disse que é muito difícil, porque há criptomoedas que conseguem driblar os serviços de vigilância e que a nossa polícia não tem tecnologia suficiente para chegar a todos os recursos. "Quando houve os eventos de prisão, no dia 25 de agosto de 2021, o dinheiro da empresa foi bloqueado. Só que no dia 26, isso dados da Polícia Federal, tá tudo lá registrado, houve uma movimentação de 11 mil bitconins pela Mirelis, algo em torno de R$ 1 bilhão e pouco. Por isso eu combate a tese de que tá tudo bloqueado. Como, se a decisão de bloqueio foi do dia 25 e ela conseguiu fazer a transferência no dia 26? E dias depois, Mirelis ainda teria mandando cerca de 10 bitcoins para a irmã", afirmou Brandão. 10 bitcoins corresponderiam a R$ 2,3 milhões. "A velocidade do golpísta para a velocidade do poder público é tipo o coelho e a tartaruga, algo parecido", concluiu.


Mirelis é Mirelis Zerpa, mulher de Glaidson Acácio dos Santos, personagem fundamental dessa história. Segundo Jeferson Brandão, quando a Polícia Federal apreendeu R$ 7 milhões em um helicóptero em Búzios, na Região dos Lagos, em 2021, Mirelis teria começado o plano de fuga. Foi comprovado que esse dinheiro pertencia a G.A.S. Segundo Jeferson, Mirelis foi para o México e lá, conseguiu um visto para estudar nos Estados Unidos. Brandão diz que chegou a ir a instituição de ensino em que ela se matriculou e foi informado que Mirelis ficou pouco tempo por lá. Mirelis era a principal operadora financeira da G.A.S e acreditá-se que ela tenha acesso a todo dinheiro da empresa. Em dezembro do ano passado, o Superior Tribunal de Justiça consedeu um habeas corpus a Mirelis, que era considerada foragida da Operação Kriptos, que prendeu o marido dela há dois anos. "A prisão da Mirelis é fundamental para o pagamento dos clientes, porque ela pode indicar onde estão os recursos", disse Luciano Régis.


No semestre passado, Mirelis Zerpa promoveu um evento que chamou a atenção de clientes e da justiça. Ela se lançou como DJ, com a imagem dela sendo veiculada nos telões da Time Square, em Nova York, um dos cenários mais badalados do mundo. "É um deboche com os clientes", disse Jeferson Brandão. Ele acredita que Mirelis esteja como imigrante ilegal nos Estados Unidos. "Quero ver ela gravar um vídeo em um avião comercial nos Estados Unidos. A desafiei sobre isso.", declarou. Nas redes sociais, Mirelis já divulgou vários vídeos onde, emocionada, se diz inocente e perseguida pela policia brasileira.


O Verdades com a Ana também questionou sobre em que pé estão os processos da G.A.S atualmente. No início do ano, foi decretada a falência da empresa e um administrador judicial, o escritório do advogado Sérgio Sveiter, do Rio, assumiu a administração da G.A.S. Ana Paula Mendes questionou se a falência vai ou não ajudar os clientes a receberem. Os advogados discordaram. "Eu acho que piora a situação dos credores", disse Luciano Regis. "Juridicamente, é impossível você falir ou recuperar judicialmente de uma organização criminosa. E quem considera uma organização criminosa não é o Luciano. É o MPF, é a juiza que fez prisões", complementou. Já Jeferson Brandão diz que três juízes já passaram pelo caso e nenhum levou em consideração a questão criminal. Muito pelo contrário. O Ministério Público Federal em uma promoção agora, de 2 semanas, falou: é pra mandar o dinheiro pra falência", disse. A justiça ainda não acatou o pedido do MPF, alegando que ele precisa ser reformulado para que não haja brejas jurídicas.


O jornalista Arnaldo Neto questionou os entrevistados sobre as lições desse caso. Para Luciano Regis, a lição é que é preciso entender muito bem o tipo de investimento a fazer. E não acreditar em tudo que se vê. Ele se refere ao fato da G.A.S. divulgar uma imagem de empresa próspera, comandada por uma família e ainda com ligações religiosas. Um disfarce para o que, segundo ele, era um esquema criminoso. O escândalo também serviu de impulso para a aprovação do Marco Legal das Criptomoedas, que entrou em vigor neste ano para regulamentar o mercado de criptomoedas. Segundo Jeferson Brandão, que participou das discussões sobre a nova lei, está faltando agilidade das autoridades: "Já veio a Medida Provisória que determinou que o Banco Central fosse o regulador. O Banco Central já falou que só ano que vem que ele vai soltar a resolução pra fazer isso, isso e isso. Então, assim, ainda tem vários passos. Muitas empresas que podem ser uma pirâmide, eles falam "não, nós já estamos regulardos. Não. Não estão. Não tem ninguém.", alertou o especialista.


Por mais complexo que seja o assunto e os diferentes sentimentos que ele desperta, o que ninguém quer mais são casos como de uma senhora de Maricá, que perdeu o marido para a Covid e recebeu R$ 100 mil de seguro de vida. O dinheiro ela aplicou na G.A.S. pouco antes da Operação Kriptos. Hoje, tem dificuldades para pagar as contas básicas e o viu o trabalho da vida inteira do marido envolvido em uma história que ainda parece distante do fim. Mas que fique, então, o otimismo de Jeferson Brandão. "Não desista. Não desista da luta. Existe parte do dinheiro bloqueado. Existem confisões do Glaidson que ele tem o dinheiro, tem as senhas. Eu sei que esperança é ultima que morre, mas é primeira que fica doente. Você tem direito", finalizou. "

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